domingo, 29 de maio de 2011

À ESPERA DO HORÁRIO

O dia estava quente! À sombra do velho portão, desesperamos a chegada do velho horário. Confesso que não sei se era para Machico ou em direção ao Funchal (penso que seja a primeira escolha). Tempo para confraternizar e fazer o tempo passar. O silêncio doía e aquele calor que castigava os cocurutos mais sensíveis pouco habituados aos ares de Água de Pena. O tempo é o destino e tudo o mais virá...

domingo, 22 de maio de 2011

O MIRADOURO - PARTE II



- Teresinha? A silhueta da mãe apareceu à porta da habitação e aprontou-se a ecoar de novo o nome da sua filha!



- Teresinha? Vem cá! Está aqui o teu amigo João… Do fundo da cozinha, um corpinho de menina, esguio e vestidinho pregado branco, apareceu de rompante. O seu sorriso foi mágico ao ver o seu companheiro. Teresinha era assim! Simples menina, filha de pescador e de mãe bordadeira, Dona Mariazinha bordava lencinhos com vilões e viloas em trajes típicos da Madeira, fazendo-os dançar em pequenos quadrados alvos, com que presenteava os turistas em busca de “souvenirs” da Ilha. Por vezes, quando haviam encomendas de alguma casa de bordados da cidade, aproveitava para bordar peças maiores, enchendo os tracinhos com linhas coloridas, caseando os riscos azuis do anil


estampado. Tinha de aproveitar todas as oportunidades que surgiam para aumentar um pouco os magros recursos económicos da família. E eram os seus cinco filhos, incluindo Teresinha, a mais nova do clã. Sustentar sete bocas era tarefa árdua!




Teresinha tinha aquele cabelo loirinho de menina de sete anos, aqueles olhos brilhantes e puros e uns pezinhos de boneca. Por vezes João, perguntava por que é que andava descalça. Na sua ideia, não entendia por que uns andavam com bons sapatos; pastas de livros com bonecos coloridos do Walt Disney e outros meninos mostravam os pés sem qualquer protecção. Ele que nunca andava descalço, só na praia, pensava como deveria doer andar pelas estradas e terras com pedras bicudas a magoar a planta dos pés. Isto para não falar nas inúmeras pancadas e cortes nos dedos!


- Teresinha, anda comigo…vamos dar uma volta! Vamos brincar junto ao lagar!


Ela, num ápice, quase sem pedir licença à mãe, largava os afazeres da cozinha e dava saltinhos ao longo do caminho.

- E vamos brincar a quê? retorquiu a pequena.


- Sei lá!... E se eu for buscar ovos ao velho galinheiro? Queres brincar às cozinhas?
.../...

domingo, 15 de maio de 2011

AS DESERTAS - VISTA DO MIRADOURO DE FRANCISCO ÁLVARES DE NÓBREGA

E as Desertas ali tão perto... misteriosas, acompanhando o tempo e o movimento dos nossos olhares!

terça-feira, 10 de maio de 2011

O ÓRGÃO DA IGREJA DE MACHICO ESTÁ NO LUGAR CERTO


«O órgão da igreja de Machico está no lugar certo»


De acordo com Dinarte Machado, o órgão de Machico é um dos instrumentos mais importantes do país e, mesmo embora tenha levado tubaria nova, é um instrumento de grande valor histórico.
Após um longo trabalho de restauro, realizado pelo mestre organeiro Dinarte Machado, o “novo” órgão da igreja paroquial de Machico foi apresentado ao público dia 4 de Dezembro de 2005 com um concerto inaugural, na altura presidido pelo Bispo D. Teodoro de Faria.
Encontrado pelo especialista em muito más condições, este órgão foi alvo de um trabalho de intervenção que passou não só pelo restauro mas também pelo estudo da sua importância histórica.
Sabendo da recente existência de uma opinião contrária à colocação do instrumento naquela igreja, Dinarte Machado — que se encontra neste momento na Região—, afirmou ao Jornal da Madeira que aquele órgão «não foi colocado na capela-mór por mero acaso ou por mera vontade minha, do prior ou de um conjunto de pessoas», mas sim, «porque o rigor do seu estudo e do ponto de vista da sua complementariedade, a nível estético-estrutural, apontava directamente para ali e não para outro sítio qualquer».
Deixando claro não querer «alimentar polémicas», o mestre organeiro, responsável pelo restauro de todos os órgãos históricos da Região, revelou que «foi feito um estudo profundo», encomendado por si, e que, «tal como aconteceu com todos os órgãos até agora restaurados aqui na Região, aquilo que ali foi feito não foi feito de ânimo leve».
Recordando que o órgão da igreja paroquial de Machico, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, «é um instrumento cuja construção se aproxima em muito da escola gótica», Dinarte Machado sublinhou que «podemos estamos a falar de um instrumento tão ou mais importante quanto o órgão da Catedral de Évora».
Tratando de ligar a história da igreja matriz de Machico à história da Madeira, o conservador disse ter encontrado pistas seguras de que esta foi no passado um templo maior do que é hoje. Além disso, continuou, «à luz da época, não era frequente encontrarmos instrumentos encastrados e também resulta que o órgão foi encontrado completamente desfigurado e que revelou, na sua constituição, aspectos únicos do ponto de vista científico e organológico».
O organeiro contou que «ao retirarmos toda a madeira que não fazia parte das madeiras originais percebemos claramente que o órgão já tinha estado em outro sítio. Aliás, um dia, o já falecido padre António Martinho alertou-me para a hipótese do órgão estar colocado num sítio redondo, baseando-se, na altura, em dados documentais e físicos, mostrando-me de seguida um arco que ele próprio tinha tapado para usar como sala de catequese. Depois de analisado esse arco fizemos um estudo rigoroso, com pessoas que chamei para poderem fazer estudos comparativos, inclusivamente de madeiras que estavam encastradas como suporte do órgão, e verificámos, sem qualquer sombra de dúvida, que o órgão tinha sido colocado inicialmente na capela-mor, no local onde está actualmente».
O mais curioso — continuou a explicar — é que não foi feita nenhuma adaptação, antes pelo contrário, foi feito um aproveitamento estrutural da caixa, retirando todas as madeiras que não faziam parte da sua origem e que são perfeitamente identificáveis».
«Sabendo eu que existe alguém que efectivamente poderá apontar, nos dias de hoje, que o órgão estará deslocado no contexto da sua utilização, eu gostaria de dizer que se trata de um órgão histórico, que fala por gerações e gerações e que, por respeito a essas mesmas, ninguém, sem seja for, tem o direito de opinar directamente para a mudança desse instrumento». Além disso, sustentou, «o estar convicto de que aquele órgão era dali e que aquele conjunto estético é um dos mais bonitos das igrejas daquela arquitectura que eu conheço do país, enquanto vivo for, não serei aquele que fará a mudança daquele instrumento», afirmou.
Ainda a respeito da importância histórica deste instrumento, Dinarte Machado esclareceu que este órgão já foi alvo de «estudos profundos e que todos os elementos recolhidos estão devidamente acondicionados e estudados, estando estes entregues a alunos que se dispõem a fazer teses de doutoramento acerca do assunto».
Órgão de Machico não foi o único a sofrer graves alterações
Dinarte Machado diz que desde os primeiros trabalhos efectuados na Região notou que os órgãos, pela ausência de técnicos especializados e pela sua não-utilização, foram sempre alvo de más intervenções por parte de curiosos locais.
«Esses “curiosos” iam adaptando os instrumentos às necessidades amadoras da altura. Obviamente que o instrumento, vindo do seu aspecto original, só vai ao encontro de músicos que tenham formação. Ou são músicos com formação para aquele tipo de instrumento ou as coisas estão postas em causa», declarou, revelando que foi o que acabou por acontecer também com o órgão da Sé do Funchal.
«O órgão da Sé sofreu uma adaptação que, a meu ver, foi completamente absurda que descaracterizou o instrumento por inteiro. Aliás, o mesmo aconteceu com o do Convento de Santa Clara, Ponta do Sol e o do Bom Jesus, no Funchal. Alteraram estes instrumentos em função da sua originalidade. Por sorte, na altura da intervenção a quantidade de material histórico indicativo era maior do que a quantidade de peças incidentes, significando que foi muito fácil chegar à sua origem, quer pela via da comparação quer pela via do conhecimento», frisou.
Numa altura em que sete dos 23 órgãos históricos existentes na Região já foram recuperados, o conselho deixado pelo mestre organeiro é que a Região, mais precisamente a DRAC, que é a entidade que tutela o projecto, continue a dar uso aos instrumentos porque se estes pararem poderão voltar a “morrer”.
Órgão de Stª Luzia pronto no primeiro trimestre de 2012
O restauro do órgão da Igreja de Santa Luzia está neste momento numa «fase bastante adiantada», estando a sua conclusão prevista para o primeiro trimestre de 2012.
De acordo com Dinarte Machado, que é o responsável pelo restauro de todos os órgãos que estão a ser recuperados pela DRAC na Região, para além do órgão de Santa Luzia, está também a trabalhar no órgão histórico da Igreja do Colégio, instrumento que, comparadamente àquilo que tem conhecimento «estava completamente desfigurado». Segundo o mestre organeiro, «o órgão era originalmente muito mais pequeno e um dos instrumentos existentes na Madeira ainda da Escola de Organaria Portuguesa do século XVIII». A investigação, ainda «numa fase conclusiva» partirá posteriormente para a «fase de restauro» como passou a explicar.
Questionado sobre o facto de passar a existir então na Igreja do Colégio dois órgãos (um deles construído de raiz por si, concluído em 2008), Dinarte Machado esclareceu que «esta será uma mais-valia não só pelo número mas também pelas suas características diferentes».
Além disso, acrescentou, «no âmbito litúrgico, este órgão histórico facultará uma melhor aproximação e um melhor acompanhamento do coro.Já a nível cultural fará com que, nesta igreja, seja possível executar música a dois órgãos e a dois coros».
Do ponto de vista histórico, Dinarte Machado frisou que a Madeira dará, uma vez mais, «um exemplo de conservação do ponto de vista histórico-organístico porque se fosse a nível nacional, e tendo em conta a condição na qual o instrumento se encontrava, este seria provavelmente colocado no lixo».

Manutenção do Orquestrofone a cargo de Dinarte Machado
A manutenção do Orquestrofone da Quinta das Cruzes está também a cargo de Dinarte Machado. A peça, um dos “ex-libris” do Museu da Quinta das Cruzes, foi adquirida pelo Governo Regional em 1978 sendo que o seu restauro aconteceu entre 2004 e 2006 pelos técnicos Maria José Cabrita, do atelier Isopo (nas estruturas em madeira e policromia) e Dinarte Machado (nas estruturas mecânica e instrumental). Fabricado pela firma Limonaire Frères, este orquestrofone, colocado num lugar especial naquele museu e que inclui uma cafetaria, pode ser ouvido diariamente afirmando-se como uma das grandes atracções turísticas daquele espaço museológico.
Segundo Dinarte Machado, este é actualmente o maior e o mais completo orquestrofone a funcionar no país. Devido à sua antiguidade (data de 1900), o especialista refere que a sua manutenção deve ser feita periodicamente e que devem ser tomados alguns cuidados sobretudo para evitar o seu desgaste. Aliás, é por esta razão que o instrumento só é exposto ao público apenas em certas horas do dia por causa da incidência da luz solar.
A título de curiosidade, o instrumento foi inicialmente adquirido pelo primeiro Visconde Cacongo, na Feira Internacional de Paris, em Agosto de 1900, junto com algumas dezenas de músicas, sobretudo rapsódias, marchas militares, hinos, e outras músicas clássicas e populares.
Este instrumento consegue ler diversas composições musicais impressas em cartões perfurados, sendo que algumas destas músicas têm carácter inédito, como a versão da "A Portuguesa" de Alfredo Keil (1904), diversos "Hymnos" dedicados aos reis D.Carlos e D.Amélia, e os "Hymnos" Português (1900), Nacional (1904) e da Ilha da Madeira (1905).
«O seu valor museológico está não só na sua raridade, mas também no seu interesse do ponto de vista técnico e artístico, além do seu complexo funcionamento e exuberância patenteada na caixa de madeira policromada, esculpida e talhada», como pode ler-se na memória descritiva do orquestrofone do Museu Quinta das Cruzes.

Lucia Mendonça da Silva
Foto e artigo publicado no Jornal da Madeira em 10 de Maio de 2011 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O MIRADOURO - PARTE I

Uma história de meninos, das suas infâncias e adolescências, comum a muitas outras. Havia um tempo, em que dois jovens trocavam ideias, faziam promessas, encantavam-se.

Sentados num rochedo do Miradouro de Francisco Álvares de Nóbrega, olhando no horizonte o imenso Vale de Machico, até aos confins da Ponta de São Lourenço. O futuro era muito longe, como a linha que dividia o céu e o mar.


Estávamos nos maravilhosos anos sessenta!


Teresa estava sentada no sofá da sala. Olhou para o pai e suplicou-lhe:


- Conta outra vez por que me puseste este nome? Gosto tanto de ouvir essa história!...


A meia encosta da serra mostrava já sinais nos tons fulvos do Verão que se anunciava. Verdes pinheiros assobiavam ao deixar passar o vento quente do Leste. Nessa altura do ano, as manhãs mostravam-se amenas, as tardes propícias às sestas ou ao resguardo de uma sombra mais acolhedora, por onde a brisa fresca pudesse ajudar à monotonia e ao descanso, e as noites abafadas, a uma pausa nos terreiros. O mês de Junho era prenúncio dos santos populares, de festas e jantares à sobra dos velhos cedros do Líbano que rodeavam a elegante casa de dois pisos e varanda ampla. Escondidas no meio de plantações de bananeiras, encontrávamos outras pequenas habitações térreas, com os seus telhados vermelhos e paredes alvas. Ao longe, a Oeste, o recém inaugurado Aeroporto de Santa Catarina ou, como na época se designava o campo de aviação era bem visível pela sua longa recta em alcatrão. No vale anterior, a Igreja de Santa Beatriz com a sua torre sineira rectangular destacava-se no pequeno vale. Do lado nascente, a Ponta do Facho fechava-se como uma parede de basalto negro escuro à visão. Só a maior distância se destacavam o Caniçal e os rochedos mais altivos queimados pelo Sol, da Piedade e da Ponta de São Lourenço.

Nessa época, João já se encontrava de férias escolares. A escola terminava como de costume após o feriado do 10 de Junho. E era depois do almoço que sentia aquela melancolia, própria da época estival. Por vezes acabava por adormecer no balcão cimentado que circundava toda a fachada frontal. O grande banco servia de mirante, de controlo de tudo o que se passava para além dos limites da quinta e, principalmente o movimento na estrada. A melhor forma de contactar com um outro mundo. Por onde as novidades forçosamente teriam de ser controladas pela vizinhança. Apetecia-lhe dormir, mas o calor sufocava-o e decidiu-se por caminhar pelas redondezas. A mãe, apercebendo-se do momento, dizia-lhe para ir brincar ou dar uma volta. Assim fez!

Resolveu descer a pequena ladeira empedrada da propriedade para ver o movimento na estrada. No final do portão, estava colocada a paragem dos horários da SAM que faziam o itinerário Funchal-Machico. Como não havia vivalma, optou por procurar Teresinha, sua amiga, que vivia no Bairro dos Pescadores, na zona logo abaixo da estrada. Percorreu algumas casas e chamou-a…

terça-feira, 3 de maio de 2011

A MACHICO - Na fralda de dois íngremes rochedos

Na fralda de dois íngremes rochedos,



Que levantam aos Céus fronte orgulhosa,


Existe de Machim a Vila idosa


Povoada de escassos arvoredos.



Pelo meio, alisando alvos penedos,


Desce extensa Ribeira preguiçosa,


Porém, tão crespa na estação chuvosa


Que aos íncolas infunde respeito e medo.



Ás margens dela em hora atenuada,


Vi a primeira luz do sol sereno,


Em pobre sim, mas paternal morada.



Aos trabalhos me afiz desde pequeno.


O abrigo deixei da Pátria amada


E vim ser infeliz noutro terreno.

Francisco Álvares de Nóbrega
Poeta Machiquense 1773-1866