quinta-feira, 5 de maio de 2011

O MIRADOURO - PARTE I

Uma história de meninos, das suas infâncias e adolescências, comum a muitas outras. Havia um tempo, em que dois jovens trocavam ideias, faziam promessas, encantavam-se.

Sentados num rochedo do Miradouro de Francisco Álvares de Nóbrega, olhando no horizonte o imenso Vale de Machico, até aos confins da Ponta de São Lourenço. O futuro era muito longe, como a linha que dividia o céu e o mar.


Estávamos nos maravilhosos anos sessenta!


Teresa estava sentada no sofá da sala. Olhou para o pai e suplicou-lhe:


- Conta outra vez por que me puseste este nome? Gosto tanto de ouvir essa história!...


A meia encosta da serra mostrava já sinais nos tons fulvos do Verão que se anunciava. Verdes pinheiros assobiavam ao deixar passar o vento quente do Leste. Nessa altura do ano, as manhãs mostravam-se amenas, as tardes propícias às sestas ou ao resguardo de uma sombra mais acolhedora, por onde a brisa fresca pudesse ajudar à monotonia e ao descanso, e as noites abafadas, a uma pausa nos terreiros. O mês de Junho era prenúncio dos santos populares, de festas e jantares à sobra dos velhos cedros do Líbano que rodeavam a elegante casa de dois pisos e varanda ampla. Escondidas no meio de plantações de bananeiras, encontrávamos outras pequenas habitações térreas, com os seus telhados vermelhos e paredes alvas. Ao longe, a Oeste, o recém inaugurado Aeroporto de Santa Catarina ou, como na época se designava o campo de aviação era bem visível pela sua longa recta em alcatrão. No vale anterior, a Igreja de Santa Beatriz com a sua torre sineira rectangular destacava-se no pequeno vale. Do lado nascente, a Ponta do Facho fechava-se como uma parede de basalto negro escuro à visão. Só a maior distância se destacavam o Caniçal e os rochedos mais altivos queimados pelo Sol, da Piedade e da Ponta de São Lourenço.

Nessa época, João já se encontrava de férias escolares. A escola terminava como de costume após o feriado do 10 de Junho. E era depois do almoço que sentia aquela melancolia, própria da época estival. Por vezes acabava por adormecer no balcão cimentado que circundava toda a fachada frontal. O grande banco servia de mirante, de controlo de tudo o que se passava para além dos limites da quinta e, principalmente o movimento na estrada. A melhor forma de contactar com um outro mundo. Por onde as novidades forçosamente teriam de ser controladas pela vizinhança. Apetecia-lhe dormir, mas o calor sufocava-o e decidiu-se por caminhar pelas redondezas. A mãe, apercebendo-se do momento, dizia-lhe para ir brincar ou dar uma volta. Assim fez!

Resolveu descer a pequena ladeira empedrada da propriedade para ver o movimento na estrada. No final do portão, estava colocada a paragem dos horários da SAM que faziam o itinerário Funchal-Machico. Como não havia vivalma, optou por procurar Teresinha, sua amiga, que vivia no Bairro dos Pescadores, na zona logo abaixo da estrada. Percorreu algumas casas e chamou-a…

Sem comentários: