terça-feira, 7 de junho de 2011

MIRADOURO - PARTE III

Trazia às escondidas as tampinhas da caixa da graxa dos sapatos e fritavam ovos na adega! João parecia radiante com a ideia. A velha fórmula de retirar ovos por baixo da rede do galinheiro e depois fazer pequenas fogueiras de palha seca no lagar era sempre bem-vinda. Ali, eram indetectáveis aos adultos o cheiro ou o fuminho que saia da húmida cave, onde estavam a velha prensa e os objectos das vindimas.

Teresinha cuidava-o como se fosse uma mãe em miniatura. Diria mais, como se de um pequeno filho se tratasse, imitando os adultos. Depois apagavam os vestígios e iam tirar bananas pintadas dos cachos já com sinais de amadurecerem em breve. Por vezes, deitavam-se em longas correrias, pelos vales de terra vermelha, que rodeavam a quinta, ou seguiam velhos trilhos pelos pinhais, em busca do tanque de rega ou ainda mais distante, do miradouro que se debruçava sobre o vale de Machico. Era um dos seus destinos predilectos, quando sentiam que podiam explorar, a longa vista, o campo de futebol. Bem junto à praia de calhau, as pessoas pareciam pequenas como formigas, no centro da vila. Depois, procuravam movimentos de pesqueiros em busca da abrigada baía para descarregar a faina ou varar na praia. Ela conhecia o pesqueiro, onde trabalhava o pai. Aparentemente eram todos muito idênticos, mas ela achava que o barco do pai Januário era diferente. Tinha cores bem garridas, pintadas de fresco. Também sabia quando ele estava na faina ou prestes a regressar.
 
No pequeno promontório, estavam gravados, na sua meia lua, versos dum poeta que João não entendia bem. Por vezes, os adultos falavam de um Camões Pequeno, o que na sua imaginação seria um homem talvez de baixa estatura, para ser pequeno… mas por várias vezes dava com a mãe versejando uma linguagem cantada em voz doce. Nessas alturas, pedia para lhe explicar o que era aquilo. D. Rosa tentava fazê-lo compreender que eram poemas e ele achava que se assemelhavam às músicas que ouvia na velha telefonia.

Naquela tarde, Teresinha acompanhava-o ao miradouro. Por vezes subiam a velha estrada de pedra negra. João confidenciou-lhe que qualquer dia iria para Lisboa estudar. Teresinha estava estupefacta.

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