sábado, 16 de julho de 2011

O MIRADOURO - Parte IV



- João, o que é que há em Lisboa? Dizia-lhe.

- Não sei… A minha mãe diz que é uma cidade muito grande, maior do que o Funchal e que tem comboios e eléctricos! Tu já viste um comboio? Teresinha encolhia os ombros em sinal de negação. E vais deixar a cidade? Referindo-se ao Funchal. Vais deixar de passar férias em Água de Pena? De brincar comigo? Ele ficou em silêncio. Não lhe agradavam tantas interrogações, aquele afastamento do seu mundo, da sua infância. Quando eu for para Lisboa, vais despedir-te de mim?... Aquele nó seco na garganta, ficara paralisado, confuso. Sabia que, ao mudar para a Capital, o seu mundo encantado desmoronaria… já não poderia brincar com os seus amigos do bairro, escorregar pelas encostas de terra batida, ir aos figos pretos, caçar lagartixas com pequenos caules de palhinha, comer uvas até se fartar, ver as tartarugas nadar no tanque de rega, ir apanhar caramujos ou lapas no calhau junto à Capela de São Roque.

E ela? Iria esquecer-se da sua companheira, a sua grande amiga, dos passeios pela fazenda, dos lanches, de tomar banho no tanque. Estava desorientado!

Então certo dia, começou a ouvir boatos que vinham uns estrangeiros ver a sua quinta. Diziam que tinham muito dinheiro, que queriam fazer ali um grande hotel, que ficariam todos ricos, com dinheiro para comprar muitas coisas bonitas como só os turistas ingleses tinham. E ele via muitos estrangeiros saindo dos paquetes, percorrendo a cidade em busca de paraísos. Nesses momentos, em que em casa os adultos discutiam à mesa, fórmulas para encontrar uma saída, foi apercebendo-se que o mundo não era tão perfeito como imaginava. Os pais estavam com problemas económicos para continuar a sustentar a pequena propriedade, para pagar as inúmeras despesas que uma habitação tem, e que o melhor seria vender à dita empresa para assim construir o tal hotel. Entretanto, abandonariam a casa construída a pulso pelos bisavós e as plantações de vinha, rumo a outra terra distante. À medida que crescia, sentia o tempo escorrer como areia por entre os dedos das mãos. Então, esse dia chegou…

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