domingo, 16 de outubro de 2011

O SINALEIRO DE SANTA CRUZ



O SINALEIRO DE SANTA CRUZ

Já tenho ouvido dizer que enquanto somos recordados, estamos vivos. Confesso que não sei! Mas é bem capaz de haver algo de verdade no que acabo de escrever. E se assim é…?

Recordo-me de em meados dos anos sessenta do século passado, ao deslocar-me do Funchal para Machico ou para o Aeroporto de Santa Catarina, do trajecto que os passageiros sofriam para cumprir a distância anteriormente reportada. No sentido Funchal-Santa Cruz, começavamos por sair do Campo da Barca, virar a Estrada Conde Carvalhal em longa agonia de curva e contra-curva subindo até São Gonçalo. Depois o veículo ia até ao topo do Pináculo, onde turistas e não turistas, contemplavam o fundo da imensa ravina rumo ao oceano. Contavam-se as últimas histórias, casos de pessoas para quem aquele local inóspito, funcionava como a última fronteira da vida, o derradeiro momento de loucura, desventuras, sonhos ou desilusões (deviam fazer um estudo profundo sobre as causas desta situação). Muitas vezes atribuídas às más condições dos veículos, outras às más condições de condutores alcoolizados, o certo é que o sitio do Pináculo, mandava respeito. Os condutores mais experientes sabiam que quando passavam por ali, mantinham redobrada atenção a quem vinha em sentido contrário em especial durante a noite e situações de chuva ou nevoeiro. De autocarro, parecia que o risco ainda duplicava, devido ao tamanho dos mesmos veículos. Depois, passado essa fase mais melindrosa, o terreno era mais amplo e visível na paisagem, dando origem a curvas mais suaves até à Cancela. Quem viajava de autocarro, tinha de descer até ao Centro do Caniço, contornando cada curva ora à esquerda ora à direita, num imenso sufoco de calor, agarrados às costas do banco da frente para maior equilíbrio de ambos os passageiros. Mas era quando começávamos a descer rumo à Ponte do Porto Novo que o alívio passava. De um lado, a imensidão dos rochedos parecia desabar a qualquer momento, do outro espraiava-se ao nosso olhar, a mudança da paisagem mais agreste e ventosa, bem como os longíquos rochedos de São Lourenço e o fim de linha para o nosso modesto horizonte. Passados a referida ponte, de novo a estrada “encolhia” em pequeninas retas de asfalto até à entrada da Vila de Santa Cruz. Do lado esquerdo, casas térreas mirradas como a própria via, estava na última curva uma figura sui-generis.

Uma pequena zorra feita de madeira, um pequeno homem com pouco mais de meio metro, dava ordens com um apito e gesticulava com os braços sinais que todos os condutores compreendiam e respeitavam. Confesso que nunca tive o prazer de falar pessoalmente com o senhor, mas fazia-me confusão um ser sem os membros inferiores que se arrastava na minúscula borda da estrada, passava o dia a transmitir informações aos automobilistas numa das zonas mais problemáticas daquela estrada. Havia condutores que paravam alguns segundos para lhe agradecer, dar uma moeda ou algo que comer ao pobre homem. Outros, elogiavam momentos difíceis vividos e que graças a este “policia sinaleiro” lhe tinha salvo a vida.

Mas o que mais me marcava quando o avistava na curva, era o seu ar de felicidade, a imensidão que brotava no seu sorriso, os gestos de agradecimento ou o afecto com que desejava “boa-viagem”, aos que por ali passavam. Nunca soube sequer o seu nome, mas se fosse hoje, pararia o carro para lhe agradecer o contributo ao longo da vida para o bem estar dos imensos automobilistas.


E continua bem presente na minha memória o sinaleiro de Santa Cruz, como se acabasse de contornar a apertada curva e o visse de apito na boca, dando ordens para avançar!








sábado, 15 de outubro de 2011

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

UMA CESTA COM FIGOS


UMA CESTA COM FIGOS


Estava uma daquelas tardes de calor sufocante e caminhava pela estrada deserta àquela hora do dia em busca de referências da minha infância. Procurava velhos caminhos, sítios onde outrora brincara. Até que parei! Aproveitando a sombra de uma árvore, fiquei imóvel sentindo o tempo parar, o silêncio invadir a cabeça de recordações. Tive curiosidade em retirar um pouco de terra, ver a sua cor, sentir o aroma dos pinheiros que imóveis exalavam o seu característico cheiro resinoso. Deixei correr as horas e, sem dar conta, embrenhado nos meus pensamentos, surgiu uma mulher a perguntar-me se andava perdido? Respondi que estava a relembrar aquele bocado de terreno, a tentar visualizar traços que o tempo vai transformando, revirando até não termos mais pontos de referência. Não satisfeita, perguntou-me o que procurava e se era dali? As minhas respostas deverão ter sido confusas para a sua mente! Entre “sins” e “nãos”, entre talvez tenha razão ou talvez não! Até que a pergunta caiu num silêncio profundo! Enorme o espaço de tempo entre o fim da última e o início de outra que despontava. Trocamos nomes de famílias, e aí fez-se luz… A face da simples mulher iluminou-se. O seu sorriso alargou-se como prova de que afinal conseguia ler a minha mente. E disparou …


- Então o menino…. E revolveu toda aquela terra, aquelas pedras, aqueles cheiros dos verdes pinos… revolveu o meu pensamento, remexeu a minha infância, a minha vida!


- Venha cá que eu vou dar-lhe uma cestinha com figos daqueles pretos para levar para o Funchal! E num ápice, foi a casa num pulo e regressou com uma bela cesta de bêberas forradas com folhas da figueira que possuía no terreno.


Fiquei estupefacto que alguém conseguisse passados tantos anos ter referências sobre a minha pessoa, mas extremamente orgulhoso quando entrei no autocarro rumo a casa e depositei na mesa da cozinha, aquele cesto de fruta madura vindo de Água de Pena com sabor à minha infância. Poderia sentir-me mais feliz?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

LANÇAMENTO DE LIVRO DE POESIA



No âmbito do Município da Cultura e das Festas do Concelho, a Junta de Freguesia de Machico tem agendado para o próximo dia 11 de Outubro, pelas 18h30m, na Junta de Freguesia, a cerimónia de apresentação e lançamento do livro Poemas do V Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega "Camões Pequeno".

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

OBRA ALUSIVA AOS INSTRUMENTOS TRADICIONAIS MADEIRENSES



'Cordofones Tradicionais Madeirenses: Braguinha, Rajão e Viola de Arame' é o título da obra integrada na colecção 'Cadernos de Folclore' a ser lançada terça-feira, às 18h30, no Fórum Madeira, em Machico.


A apresentação do livro da Associação de Folclore e Etnografia da Região Autónoma da Madeira está a cargo do investigador na área da música, Paulo Esteireiro e realiza-se no âmbito do Congresso Nacional de Folclore, a decorrer em Machico.

No mesmo dia, a partir das 21h30, está ainda agendado o espectáculo 'ilha de Tradições' com as actuações dos grupos de folclore do Porto da Cruz, Caniçal, Machico e do grupo de música tradicional madeirense Xarabanda.
Fonte D.N. de 05-10-2011