sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

OS SAPATOS NOVOS - conto de Natal

O vento uivava por entre as frestas da porta da cozinha. A noite à muito tinha descido sobre a montanha, sobre os caminhos da aldeia, as casas desoladas e velhas e tristes. Só o fumo que saia das chaminés indicava presença humana. Na rua, nem vivalma. Ninguém se atrevia a calcorrear as pedras de basalto.. Também na pequena casinha, humilde sem comparação, da casa da avó Matilde, acocorada à lareira, via o crepitar das poucas brasas incandescentes que iluminavam as paredes frias, e projetavam como se fossem marionetas ou sombras chinesas num palco. Ali existia gente! Avó e neto, olhar fixo no borralho alaranjado que emergia mansinho no chão. O silêncio era comovente. Ninguém ousava abrir a boca fosse para o que fosse. Matilde e Pedro sentiam a chuva cantar nas telhas, tamborilar na soleira da porta, salpicando compassadamente como fossem notas musicais. As brasas, essas iam desmaiando e transformando em pó cinzento e branco, tão leve como o vento que assobiava lá fora. Por fim, a avó interrompeu o tempo e comentou como se falasse para si mesma:


- Mas que noite longa!

Sabia que em outras casas das redondezas, a noite iria ser aconchegada e quente. Doces e carne de vinha de alhos, presenteariam os que se agrupavam à roda das mesas fartas, que das cozinhas aprontavam a canja para depois da missa do galo.

Pedro brincava com um graveto, tentando juntar bocadinhos de carvão ainda por queimar, fazendo os possíveis por avivar as chamas na lareira. Também ele sabia que aquela noite de consoada, iria ser longa. O sapato com que usava diariamente para ir à escola, equivalia à invernia da noite, ao vento que teimava em passar entre os buracos das madeiras do casebre, ou deixava entrar a chuva pela sola, esburacada pelo uso, a pedir misericordioso conserto do tio Manuel sapateiro da aldeia, e que nas horas vagas, se dedicava à arte de prolongar o calçado.

Pedro ouvira histórias de outros meninos na escola onde andava. Sabia que e o Pai Natal andava de casa em casa naquela noite, numa azáfama sem par. Pela manhã, os amigos exibiam como troféus, roupas finas, brinquedos e guloseimas cobiçadas pela criançada. Só ele ficava mudo, imobilizado, sem conseguir articular palavras ou dar resposta à sacramental e dolorosa pergunta dos amigos:

- Então Pedro? O que é que o Pai Natal te deixou no sapatinho?

Aquela frase feria-o de morte! Viver com a avó era o seu único recurso possível. Sentia que nada podia pedir, nada podia comentar ou sonhar. Não queria vê-la de lágrimas nos olhos.

Decidiu por ir deitar-se! Deu as boas-noites e rumou à sua caminha, ao aconchego do colchão de palha, do quentinho das mantas e cobertores. Pelo menos ali, tinha liberdade para desabafar em sonhos, que pelas noites se acercavam do seu leito. Debaixo das roupas, podia dialogar com o Pai Natal, fazer-lhe promessas, pedir-lhe conselhos próprios de menino que só têm sonhos e bolsos vazios. Podia rezar ao Menino Jesus que via no presépio da capela… adormeceu!

Era dia de Natal!

Acordou com o barulho que da cozinha lhe chegava aos ouvidos. Avó Matilde por certo, madrugara! O cheiro a café, despertara-lhe o apetite e levantou-se! A fogueira já crepitava forte e flamejante. Na mesa, douradas brilhavam num prato, à sua espera e polvilhadas de açucar e canela. Pedro nem dera conta que era manhã de Natal. Beijou a avó, que se queixava de ter dormido mal com o barulho da tempestuosa noite e dizia ter ouvido ruídos na cozinha. Só então associou tudo ao revirar os olhos para o seu sapato velho. Lado a lado estava um par de sapatos novos e brilhantes, bem como um embrulhinho com rebuçados, daqueles iguais aos que o Senhor Martins tinha na venda. Ficou petrificado, sem conseguir dizer palavra para explicar o fenómeno. Avó Matilde, dizia que os calçasse para ver como lhe ficavam. Depois, olhando-a disse:

- Avó! Como é que o Pai Natal sabia que os sapatos me iriam ficar tão bem?

Carlos Alberto Monteiro

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