terça-feira, 23 de agosto de 2016

O TEMPO E O VENTO

O tempo e o vento


O dia tinha realmente 24 horas! Bastava ver que o tempo era medido, no acordar com o barulho na cozinha, pelo cheiro a café e a torradas que subia até ao andar superior. Sabíamos que era hora de levantar quando o Sol inundava as verdes venezianas, e os seus raios cintilantes procuravam uma nesga na madeira para entrar nos aposentos.  Depois passava a manhã a pesquisar os montes, pequenas elevações do terreno onde pinheiros bravos abraçavam-se ao sabor do vento. Por vezes parava, para escutar o som do vento passando entre a folhagem de agulhas afiadas. Procurava pinhas, colhendo no chão as mais perfeitas ou as que achava serem as mais bonitas. Era certo que as minhas preferidas iriam acompanhar-me até à cidade, até que um dia possivelmente de chuva no Outono, acabariam por ser pintadas de prateado para decorarem a lapinha quando chegasse o Natal. As tardes eram cadenciadas como as longas ondas que balançavam no oceano, entre o triângulo que ia da Ponta de Santa Catarina, às Desertas e à Ponta de São Lourenço. Podia acompanhar os pequenos veleiros, os “carreireiros” que levavam mercadorias de e para o Porto Santo, desde que apontavam lá para os lados do farol até desaparecerem por completo rumo ao Garajau e à cidade do Funchal. E havia tempo para seguir com o olhar, o pequeno risco de espuma onde a proa rasgava o azul do mar. Depois à medida que a noite avançava, ficávamos inertes, sentados no comprido banco de cimento que formava a baia, no terreiro circundante à casa, seguindo o imenso luzeiro de barcos de pesca na sua faina nocturna ou um paquete, que cruzando o horizonte seguia o seu destino. A  a imagem, essa ficava no nosso pensamento e com ela os primeiros sinais de sonolência ou um bocejar mais dramático e sonoro que nos conduziria ao vale dos lençóis. E tudo em 24 horas!
Por curiosidade, uma das pinhas acompanhou-me durante décadas a fio! Trouxe-a um dia no fundo de uma mala, como se fosse uma pequena jóia preciosa. Estava pintada de cor prata. Na parte inferior, a servir de suporte tinha um pequeno quadrado de madeira, de modo a mantê-la sempre direita no presépio. Por baixo, podia ver escrito a caneta com uma caligrafia infantil, o seguinte: - Água de Pena – 1966.   
Como um búzio que se encosta ao ouvido e se tem a percepção de ouvir o mar, naquela simples pinha, eu escutava os pinheiros assobiando ao sabor do vento, o cheiro a resina e a brisa quente bailando sob o meu rosto. E tudo em apenas 24 horas…


CAM

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

AS CORES DAS HIGHLANDS

AS CORES DAS HIGHLANDS


O programa era da National Geographic. Imagens das Terras Altas da Escócia, nas diversas épocas do ano. Os campos dourados, as montanhas banhadas pelo Sol, a casa rural na charneca onde um agricultor colhia cereais. Confesso que fiquei fascinado pelos tons quentes do fim de estação estival. Veio então à minha memória que aqueles eram precisamente os mesmos dourados dos teus cabelos, ondinhas e ondinhas sem fim, a tua face salpicada de milhentas sardas sardas, pintinhas que eu dizia serem feitas de beijinhos. Recordei então que me falavas tinham vindo em veleiros ao sabor das correntes, em busca de outras terras, quando a nave encalhou numa qualquer praia de areias negras, e por cá ficaram alguns séculos, vivendo com a saudade das Higlands, aroma de whiskies amadurecidos e kilts de cores quentes. Fiquei a imaginar que os dourados dos teus cabelos eram prolongamentos dos mesmos campos que eu via, que a charneca onde o gado pastava e os altos rochedos  banhados pelo astro rei e lá estavam as ondinhas e ondinhas dos campos de rito batidos pelo vento espraiando-se no infinito. E eu recordava-me de ti e do teu sorriso viajando pelos campos da Escócia, embalado em histórias de monstros no Loch Ness.  
IM MEMORIAM MATER